Bisqui

Eu sou ator

19 de março de 2025, Ze Tomaz

Eu sou um ator. Atuo no audiovisual e sou apaixonado por sentir e por mostrar a minha verdade. Essa paixão me levou a estudar muito, a buscar uma consciência profunda sobre meu corpo, meu rosto, minhas expressões. Dediquei horas, dias, anos para entender cada movimento, cada gesto, cada nuance que meu corpo é capaz de expressar. Criei um repertório pessoal de poses, vozes, olhares, e também aprendi a reconhecer aquilo que não consigo fazer. Essa consciência é o que me permite entrar diante das câmeras com confiança, sabendo que posso entregar o melhor de mim.

Dedico minha vida a dar vida para ideias de outras pessoas. Sou o rosto que conta uma narrativa que foi pensada por alguém, talvez muito tempo atrás. Gosto de me conectar com esses projetos, de me apropriar deles, de mergulhar neles até que se tornem parte de mim. E então, quando estou diante da câmera, permito que essas narrativas fluam através de mim, para que as pessoas que assistem ao resultado final também possam se conectar com elas. Acredito em produções que transformam, que atravessam, que impulsionam as pessoas, ou até mesmo que as freiam. Faço isso porque já fui atravessado por muitos projetos, e cada um deles me transformou. Sei o poder que uma boa história tem de mudar vidas, porque a minha foi mudada assim.

Mas não preciso atuar apenas em grandes narrativas ou em projetos que vão atravessar as pessoas. O que faço, faço também pelo dinheiro, por sobrevivência, e por isso eu preciso de oportunidades. Me sinto um pouco insultado quando optam por um não ator para fazer uma cena por considerar que esta é simples demais. Eu também me preparei para fazer o simples, eu também gosto de participar de produções que são apenas comerciais ou vídeos curtos. Eu preciso deles. Cada projeto, por mais básico que pareça, é uma chance de me manter vivo, de continuar fazendo o que amo, e de me aprimorar como profissional. Não há papel pequeno para um ator. Há oportunidades, e isso já é suficiente.

Quando estou diante da câmera, estou totalmente vulnerável e totalmente poroso. Minha concentração é o meu escudo, o que me protege e o que me permite atuar com qualidade. Meu repertório pessoal é o que me faz chegar ao nível que o diretor precisa. Mas não gosto quando não há espaço para que eu entregue aquilo que sou capaz. Algumas produções são mais sobre ego do que sobre narrativas, e isso não tem problema. O problema é quando meu rosto ou meu corpo são mal aproveitados, quando a essência do projeto não é prioridade, e o resultado final não reflete o potencial que eu sei que poderia ter sido alcançado.

Eu gosto de ser dirigido, eu preciso ser dirigido. Vou atingir meu maior nível de performance quando conseguir inteiramente me conectar com a narrativa e com o personagem. Para isso, preciso minimamente acreditar naquilo que está sendo dito. Preciso conhecer o roteiro antes do dia da gravação, entender as expectativas da direção sobre mim e chegar no set já preparado. Preparação é tudo. É o que me permite entregar algo verdadeiro, algo que ressoe com o público.

Também preciso confiar. Confiar nos meus colegas de cena, confiar na equipe técnica. Saber que não vão me mostrar no vídeo de uma maneira que queime minha atuação. A confiança é o que permite que eu me solte, que eu me entregue completamente ao momento. Quando confio, posso ser vulnerável. E é na vulnerabilidade que a magia acontece.

Eu sou um ator, e essa arte me escolheu. Cada dia mais me encontro fazendo o que faço, e espero encontrar pessoas que tenham boas narrativas para realizar. Projetos que valham a pena, que mereçam ser vividos e contados. Porque, no fim das contas, é isso que me move: a possibilidade de transformar, de tocar, de conectar. De ser, mesmo que por um instante, a ponte entre uma ideia e o coração de alguém. E é por isso que continuo. Porque acredito no poder das histórias. E porque, de alguma forma, elas sempre me encontraram. E eu, como ator, estou aqui para encontrá-las de volta.